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Memórias mediadas
A memória do retorno e da descolonização não se constrói apenas através da experiência vivida. Livros, filmes, programas de televisão, exposições e outras produções culturais desempenham um papel importante na forma como estes acontecimentos são recordados, interpretados e debatidos. Aqui pode encontrar algumas dessas representações e os modos diversos como contribuíram para construir memórias do fim do império português*.
*As imagens provenientes de catálogos digitais colaborativos são usadas para fins educativos e de investigação, com indicação da fonte. Caso algum titular de direitos pretenda solicitar correção, atribuição adicional ou remoção, poderá contactar a equipa do ARCA.
Exposições
Manuel Santos Maia, alheava, 2009-2025.
Instalação, vídeo, fotografia e arquivo


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Inclui alheava_film (2006–2007, Coleção de Arte Contemporânea do Estado), alheava_Nampula (2012, Galeria Quadrado Azul), Alheava para Depósito (Exposição Retornar, 2015), Um Lugar sem País no Mundo (2022, Espaço Mira) e Nampula Macua Socialismo (2025, Galeria Quadrum) e outros.
Ângela Ferreira, Messy Colonialism, Wild Decolonization, 2015.
Instalação

Recorrendo a escultura, vídeo e imagens de arquivo, Ângela Ferreira revisita criticamente a descolonização portuguesa através dos caixotes e pertences trazidos pelos retornados depositados nos cais de Lisboa. Ao confrontar estes vestígios materiais com símbolos da memória imperial, a obra interroga os legados do colonialismo e os modos como o fim do império continua a ser recordado no presente.
Elsa Peralta (comissária), Retornar: Traços de Memória. Galeria Avenida da Índia e Padrão dos Descobrimentos, Lisboa, EGEAC / Câmara Municipal de Lisboa, 2015-2016.
Exposição e intervenção urbana.
Assinalando os quarenta anos do retorno, a exposição reuniu objetos, fotografias, testemunhos e documentos de arquivo para explorar a natureza fragmentária e plural das memórias da descolonização e do fim do império português. Incluiu também uma intervenção urbana junto ao Padrão dos Descobrimentos, com contentores que evocavam os caixotes acumulados em Lisboa em 1975.
Lilla Szász, Greetings From My New Home, 2018-2020.
Exposição, livro/ensaio fotográfico e website



Desenvolvido pela fotógrafa Lilla Szász com a colaboração de Elsa Peralta, Greetings From My New Home revisita os espaços que acolheram os retornados após a chegada a Portugal. Através da fotografia, dos arquivos e dos testemunhos, o projeto explora as relações entre memória, pertença, deslocação e pós-colonialismo.
Lilla Szász, Greetings From My New Home, website.
Lilla Szász, Greetings From My New Home, Budapest Gallery, Budapeste, 2020. Exposição fotográfica. Curadoria: Zsuzsanna Szegedy-Maszák.
Lilla Szász e Elsa Peralta, Greetings From My New Home, 2019. Livro / ensaio fotográfico.
Filmes
Gente do Norte ou a História da Vila Rica, 1977.
Realização de Leonel Brito. Produção Cinequanon.
Filme documental.

Realizado pouco depois das descolonizações, o filme retrata as transformações sociais e económicas da região de Torre de Moncorvo. Cruzando as experiências da emigração, da guerra colonial e da chegada de pessoas vindas das ex-colónias africanas, documenta um país em mudança, onde os que regressam se cruzam com os que continuam a partir.
Angola: No Outro Lado do Tempo, VHS (1996), DVD (2003)
Vídeo memorial
Produzido por antigos residentes de Angola, este vídeo reúne fotografias, imagens de arquivo e testemunhos dedicados à evocação da vida colonial. Constitui um dos exemplos mais significativos da memória produzida pelos próprios retornados.

Moçambique: No Outro Lado do Tempo, VHS (1996), DVD (2003).
Vídeo memorial
Reunindo imagens, fotografias e testemunhos, este vídeo constitui uma evocação memorial da experiência colonial portuguesa em Moçambique e da sua permanência nas recordações dos antigos residentes.

Tabu, 2012. Realização de Miguel Gomes
Filme

Aclamado internacionalmente e distinguido com o Prémio Alfred Bauer e o Prémio FIPRESCI no Festival Internacional de Cinema de Berlim, Tabu cruza memória, romance e imaginação para revisitar o passado colonial português em África. Entre a Lisboa contemporânea e o universo nostálgico de uma fazenda em Moçambique nos últimos anos do império, o filme explora as relações entre recordação, silêncio e perda.
Quatro Paredes Tombadas, 2025. Realização de João Oliveira
Documentário

Partindo da história da sua própria família, o documentário explora os legados da experiência colonial portuguesa e do retorno através da aldeia de Rocas do Vouga, para onde os pais do realizador regressaram após deixarem Moçambique em 1977. Cruzando memória familiar, paisagem e testemunho, o filme interroga as marcas deixadas pela descolonização e a forma como estas continuam a ser transmitidas entre gerações.

Livros
Júlio Magalhães, Retornados: Um Amor que Nunca se Esquece
Lisboa, A Esfera dos Livros, 2008

Através de uma história de amor vivida no contexto da ponte aérea entre Luanda e Lisboa, o romance acompanha o drama da partida de milhares de portugueses de Angola em 1975. Cruzando ficção e enquadramento histórico, explora as experiências de perda, deslocação e adaptação que marcaram a chegada dos retornados a Portugal.
António Trabulo, Retornados: O Adeus a África
Lisboa, Cristo Negro, 2009

Misturando ficção, enquadramento histórico e testemunhos, o romance acompanha o êxodo de portugueses das antigas colónias africanas. Através de personagens confrontadas com escolhas políticas, perda e sobrevivência, a obra procura dar forma narrativa ao fim do império e à experiência do retorno.
Isabela Figueiredo, Caderno de Memórias Coloniais
Coimbra, Angelus Novus, 2009 [Editorial Caminho, 2015]


Obra fundamental da literatura portuguesa contemporânea, confronta criticamente o racismo, a violência e os privilégios do sistema colonial português a partir da memória autobiográfica da autora, filha de colonos em Moçambique.
Aida Gomes, Os Pretos de Pousaflores
Lisboa, Dom Quixote, 2011

Através da história de uma família regressada de Angola, o romance aborda questões de raça, pertença, integração e exclusão, dando visibilidade a experiências frequentemente ausentes das narrativas dominantes sobre o retorno.
Ana Sofia Fonseca, Angola, Terra Prometida: A Vida que os Portugueses Deixaram
Lisboa, Almedina, 2011

Baseado em entrevistas, memórias e documentação histórica, o livro recupera experiências da vida quotidiana Angola durante as décadas finais do período colonial. Centrado nas experiências e modos de vida dos colonos, oferece uma representação marcada pela evocação afetiva de um mundo perdido.
Dulce Maria Cardoso, O Retorno
Lisboa, Tinta-da-china, 2011

Narrado a partir da perspetiva de um adolescente regressado de Angola em 1975, este romance tornou-se uma das obras literárias mais influentes sobre a experiência do retorno e as suas consequências familiares e sociais.
Rita Garcia, SOS Angola: Os Dias da Ponte Aérea
Lisboa, Oficina do Livro, 2011

Dedicado à ponte aérea que evacuou centenas de milhares de pessoas de Angola entre julho e novembro de 1975, o livro centra-se na experiência humana da partida e na complexa operação que transportou milhares de pessoas para Portugal com base em documentação e testemunhos de passageiros e tripulações.
Rita Garcia, Luanda Como Ela Era (1960–1975)
Lisboa, Oficina do Livro, 2016

Através de fotografias, documentos e testemunhos, o livro reconstrói a vida urbana de Luanda nos anos finais do período colonial. Centrado nos modos de vida da população portuguesa da cidade, oferece uma evocação vívida e afetiva da capital angolana, contribuindo para a preservação de uma memória marcada pela nostalgia desse universo colonial.
Teatro
Joana Craveiro / Teatro do Vestido, Retornos, Exílios e Alguns que Ficaram, 2014
Teatro documental

Cruzando arquivo, memória oral e performance, esta peça explora diferentes experiências da descolonização portuguesa: os que regressaram, os que partiram e os que permaneceram nos novos países independentes. Através destas histórias, Joana Craveiro dá forma cénica a memórias frequentemente ausentes das narrativas públicas sobre o fim do império.
André Amálio / Hotel Europa, Portugal Não É um País Pequeno, 2016
Teatro documental

Construído a partir de testemunhos e investigação histórica, o espetáculo reúne memórias de antigos colonos portugueses para refletir sobre a ditadura, o colonialismo e a descolonização. Através de uma metodologia de verbatim theatre, dá voz a experiências frequentemente ausentes das narrativas públicas sobre o fim do império português.
André Amálio / Hotel Europa, Passa-Porte, 2017
Teatro documental

A partir de testemunhos reais, o espetáculo aborda as consequências do fim do império português na vida de pessoas chegadas das antigas colónias africanas. Dando particular atenção a africanos a quem foi negado o acesso à nacionalidade portuguesa, Passa-Porte interroga as fronteiras entre retorno, refúgio, exílio e exclusão no Portugal pós-colonial.
Joana Craveiro / Teatro do Vestido, Filhos do Retorno, 2017–2018
Teatro documental

Dedicado às gerações que herdaram as memórias do retorno sem o terem vivido diretamente, o espetáculo explora os processos de transmissão intergeracional do passado colonial e da descolonização a partir de testemunhos, arquivos e histórias familiares.
André Amálio / Hotel Europa, Os Filhos do Colonialismo, 2019

Partindo do conceito de pós-memória, o espetáculo explora as relações que as gerações posteriores ao 25 de Abril mantêm com o passado colonial português. Reunindo em palco os próprios entrevistados, a peça cruza biografias, memórias familiares e reflexão política para interrogar os legados do colonialismo e a sua presença na sociedade contemporânea.
Televisão
Pau Preto, RTP1, 1989. Realização de Oliveira e Costa. Autoria de Isabel Medina
Telefilme

Produzido no final da década de 1980, o telefilme retrata as dificuldades de integração social de uma família retornada de Angola, explorando temas como racismo, desigualdade social e pertença na sociedade portuguesa pós-colonial.
E Depois do Adeus, RTP1, 2013
Série televisiva

Primeira série televisiva portuguesa centrada na experiência dos retornados, acompanha a chegada de uma família proveniente de Angola ao Portugal revolucionário de 1975. Combinando ficção e imagens de arquivo da época, contribuiu para trazer o tema do retorno ao grande público. Construída a partir da experiência dos colonos repatriados, a série oferece uma leitura da Revolução e da descolonização que privilegia as vivências do retorno.
















